Desacerto

Ligo o ventilador. Não está bom. Nem bem.

Você sabe né? Um daqueles domingos em que as coisas não estão certas. Você muda os móveis de lugar, põe o lixo pra fora, arruma a casa e ela não se arruma. E tem um bolo de cabelo no canto da sala, e tem uma etiqueta de uma roupa que você não sabe quando comprou debaixo da mesa. E a fome que vem não dá pra saber se é fome, e o arrepio não dá pra saber se é sono, se é frio.

É desacerto.

Você acorda assim. O dia não evolui, você não evolui com o dia. Tudo o que você faz parece malfeito, até passar manteiga no pão. Parece que nem dirigir dá certo, e você se sente com 80 anos ao volante. O carro não acelera o quanto deve, não freia o quanto deve. O rádio não toca a música que você quer. O vento não sopra pro lado certo.

Não é azar, é desacerto.

E dá vontade de abraçar alguém, mas te dá repulsa ao sentir o toque de uma pessoa. E sua pele, limpa, parece suja. Tem uma aura de fumaça sobre os seus ombros. Minhas unhas e pelos do braço me incomodam. Barulho de telefone me dá calafrios. E conversar pra que, se minha voz parece rouca, minhas palavras parecem desencontradas, minhas memórias parecem inúteis e minhas piadas, sem graça?

Não é mau humor. É desacerto.

Não é tristeza, é desacerto.

Não é sono, é desacerto.

Não é preguiça, é desacerto.

Não é domingo, é desacerto.

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Insônia

Roendo os cantos das unhas

Ligando e desligando a tv

Lendo livros inúteis

Falando sozinha

Escrevendo

Alongando os braços

Respirando fundo

Acordada, profundamente acordada. Sem previsão de sono. Os minutos passam. O relógio avisa que eu vou dormir na hora errada.

Então eu aviso que não quero dormir, não suporto dormir, que inferno! Às vezes com o adormecer vem o receio de que algo está  errado.

No limbo entre “quase dormindo” e “dormindo” tenho desconfortos insuportáveis. Como algo remexendo no fundo da minha cabeça pensamentos que não deveriam vir à tona,  que estão encobertos, escondidos, velados por algum motivo.

Deito a cabeça no travesseiro e peço pra não sonhar. Tomo um gole d’água antes de apagar a luz, mas depois de tirar os óculos. O escuro fica girando ante meus olhos, aumentando de tamanho até estourar. Sensação de fim de mundo. Viro de lado e esbarro no copo d’água. Há doze anos durmo todos os dias com um copo na cabeceira da cama. Maldita mania. Medo ou preguiça de acordar durante a noite com sede e não ter água pra tomar

Mas nunca acordo durante à noite.

Adormecer é difícil.

Acordar é imensamente difícil.

Não existe mundo de verdade para os insones.

Deito-me no mundo paralelo das olheiras e pesadelos…acho que assim nasceu o amor pelas trevas

Boa noite…

 

Quase viva…

Não “quase viva” em tom de esperança…pode esquecer

Em meio às férias, à volta à cidade, à morte do Michael Jackson, e  aos 40 anos do álbum “Abbey Road” eu ignorei conscientemente esse blog. Desagradável…

Não estou engraçada hoje…na verdade, todos à minha volta dizem que eu estou mal humorada…ou que eu sou mal humorada…eu poderia dizer “ao inferno com eles”, mas eu mentiria em dizer que não me preocupo com o que os outros dizem. Se existiu alguém que não se preocupava, essa pessoa já morreu em alguma manifestação que não deu em nada, durante algum período histórico presente em livros, mas não em NOSSAS histórias ou mentes.

Não sou rebelde…de maneira alguma. Se fosse, não seria sem causa, mas sem vontade ou eloquência. Revoltar-me contra  o que? Os que se dizem revoltados com o sistema não fazem nada para mudá-lo. O dia em que eu tiver uma idéia consistente de revolta, me revoltarei…ou o dia em que não restar outra alternativa a não ser sair da linha de produção.

Estava lendo a biografia de John Lennon. Eu ouço muitas pessoas, dessas aí com décadas nas costas mas nenhuma consciência, dizendo que ele foi só um revoltado. Mas eu só fico realmente pasmada (a língua portuguesa parece estranha às vezes) quando dizem que ele foi um grande homem que fez boas músicas. Eu sei e muitos sabem que ele não foi apenas isso. Não direi o que se diz sempre: ele foi um ícone, um artista completo, um gênio. Só observarei uma coisa: 40 anos depois do lançamento do último álbum dos beatles, se olharmos em todas as playlists e adolescentes no mundo todos, há uma grande chance de encontrarmos uma música deles.

Isso é continuar vivo…

…enquanto isso, vou tentando reviver…

Tão distante

De seus olhos

Da sua voz…

.

Ah, revoltada!

Com o vento das suas palavras

E com minha voz que diz nada

Inutilidade de diálogos com começo e fim

Passos contados rumo a encontros de sorte

Acasos, acasos, acasos!

O que penso só se traduz em poema, mas não se traduz em poema

A prosa também fica pelo caminho, jogada, negada,trincada

Não há nada de surreal nisso

Não há nada de romântico nisso

É simplório

Ínfimo

Sem sentido

No vento frio, no rastro frio

.

Na realidade e no desejo de sentir

Tudo o que é sentir

Morrer e renascer a cada segundo

Rasgar a alma

Gritar em meio a milhões

Amar.

Olhando pela janela de madrugada

Ninguém na rua

Ninguém

Eu poderia dançar na rua se quisesse

Eu poderia deitar na rua se quisesse

Mas não vou

Nada, Nada na rua

Só o som de um sambinha constante e estranho ao fundo…sem cadência, sem alguém cantando…

Só cavaquinho e pandeiro, tão ou mais solitários que essa calçada

Um cheiro de lixo (que coisa pouco sentimental)

E um vento com vontade de dormir

Como eu

Pássaros cantando, agora?????

(O cavaquinho prossegue, sozinho)

Carros ao longe

(O cavaquinho para)

Luzes ao longe

Mulheres conversando em algum lugar. Aonde?

A rua me incomoda

fecho a janela

“[…]e o universo-reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.”

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Conversas de Ônibus

De uma coisa eu tenho certeza: depois de eu pagar 2 reais para pegar um ônibus lotado, ficar em pé, andar em uma rua cheia de buracos e quase cair ao passar na rotatória, deve existir pelo menos uma alternativa de diversão nesse simpático transporte público: as conversas. Perdi a conta de quantas vezes já ouvi histórias inacreditáveis enquanto tentava não derrubar minha mochila.

Outro dia uma me chamou a atenção. Tanto que até desci no ponto errado, prestando atenção nas indagações cheias de medo de uma mulher idosa, conversando com um adolescente. A senhora cometeu um grande erro ao querer puxar assunto…

– Viu o negócio da gripe suína?

– Quem?

– A gripe suína!

– Ah sei, me deu uma ontem.

– Como assim?

– Começei a espirrar ontem, tenho certeza de que é a gripe suína. Bem que eu pensei em ficar em casa pra não passar para os outros, mas não deu…

– Espera, você ‘tá com gripe suína e ‘tá sentado ao meu lado? Você é louco? Você quer matar todo mundo? Você…

Enquanto isso, o cobrador ria:

– Eu sei que é maldade, mas é engraçado: é a terceira velhinha que esse cara assusta nessa semana…

Como é?

Bom dia blog novo!

Comentários de pessoas que me ouviram dizendo que eu ia fazer um blog:

“Que coisa de desocupado”

“Você não nada de mais importante pra fazer não?’

“Mas você vai escrever o que, fofoca?”

“Você nem tem o que escrever!”

“Há!”

É…no fim das contas era melhor eu nem ter falado…

Mas já que esses comentários chegaram como um verdadeiro sopro de inspiração, respondi a todos: “Como assim ‘não’?”

E fez-se o blog. Muito prazer, a anônima que vos fala é xuxu, pré-jornalista com idéias inúteis demais na cabeça. O “Como assim ‘não’?” é uma via de escoamento de pensamentos do tipo “eu poderia ter ido dormir sem essa” e “hum…e daí?”.

Um lugar para ser sincero. Deixe sua história aqui e eu vejo o que fazer com ela.

enfim….nada

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