Desacerto

Ligo o ventilador. Não está bom. Nem bem.

Você sabe né? Um daqueles domingos em que as coisas não estão certas. Você muda os móveis de lugar, põe o lixo pra fora, arruma a casa e ela não se arruma. E tem um bolo de cabelo no canto da sala, e tem uma etiqueta de uma roupa que você não sabe quando comprou debaixo da mesa. E a fome que vem não dá pra saber se é fome, e o arrepio não dá pra saber se é sono, se é frio.

É desacerto.

Você acorda assim. O dia não evolui, você não evolui com o dia. Tudo o que você faz parece malfeito, até passar manteiga no pão. Parece que nem dirigir dá certo, e você se sente com 80 anos ao volante. O carro não acelera o quanto deve, não freia o quanto deve. O rádio não toca a música que você quer. O vento não sopra pro lado certo.

Não é azar, é desacerto.

E dá vontade de abraçar alguém, mas te dá repulsa ao sentir o toque de uma pessoa. E sua pele, limpa, parece suja. Tem uma aura de fumaça sobre os seus ombros. Minhas unhas e pelos do braço me incomodam. Barulho de telefone me dá calafrios. E conversar pra que, se minha voz parece rouca, minhas palavras parecem desencontradas, minhas memórias parecem inúteis e minhas piadas, sem graça?

Não é mau humor. É desacerto.

Não é tristeza, é desacerto.

Não é sono, é desacerto.

Não é preguiça, é desacerto.

Não é domingo, é desacerto.

Anúncios